Essa é a minha vida e eu não a trocaria por nada!

Hoje escrevi um texto para um livro que sairá sobre a cena psychobilly no Brasil pelo meu amigo de Curitiba Marcio Tadeu e como certamente será publicado apenas alguns detalhes, compartilho com vocês um pouco da minha história. Minha historia dentro do rock vem basicamente de berço, meu pai Eddy Teddy, sempre foi um cara apaixonado pelo rock & roll e desde sua adolescência vinha participando de bandas e sempre agitando festas e feiras de discos com intuito de aglutinar colecionadores de discos e apaixonados pela musica.

 

 

Eddy, Luiz e Marcos

Na minha infância era algo mais do que normal esse tal de rock & roll, é até engraçado dizer isso, mas cresci no meio de festas, reuniões, eventos, shows, ensaios, passeava com meu pai com freqüência pelas lojas de disco em SP e enquanto rolavam ensaios e mais ensaios (no quartinho que ficava em nosso quintal) das bandas que ele tocava eu brincava com os filhos dos outros músicos sobre uma trilha sonora incrível de dar inveja a qualquer moleque da minha idade. Minha casa era um reduto de músico, aficionados e pessoas ligadas a arte em geral, passaram por lá muita gente conhecida e que se destacam até hoje nesse cenário. Uma das nossas brincadeiras favoritas era a de ter uma bandade rock & roll com cabos de vassoura fazendo de conta que eram nossos instrumentos, isso sem contar quando brincávamos de gangs inspiradas em filmes que assistíamos na época como Happy Days, Wanderers, Juventude Transviada, Selvagem, The Lords of Flatbush, entre outros, mas para frente arriscamos até em fazer programas de rádio que eram gravados em fitinhas cassete onde líamos textos sobre a vida de cantores que gostávamos…..bons tempos!!

Luiz Teddy completando 15 anos

O Eddy, como um bom pesquisador do Rock & Roll, no início dos anos 80 mergulhou de cabeça no rockabilly e nas raízes do rock e começou a vasculhar tudo sobre a cena que no mundo acontecia uma espécie de revival e com isso resolveu montar uma banda de rockabilly, o que até ai não existia nenhuma que fizesse esse som no Brasil ou que se intitula-se como tal. A partir daí surgiu o Coke Luxe(já comentado por aqui em alguns textos) e se iniciava em São Paulo uma cena Rockabilly que se espalhou rapidamente pelo Brasil. Certamente já existiam muitos apaixonados pelo estilo mas foi através do Coke Luxe e do Clube do Rockabilly (Depois SP Rock & Roll Club) fundado pelo Eddy Teddy que conseguiu através de cartas reunir os adeptos do estilo espalhados por todo o Brasil, numa época onde a informação era demorada e havia uma grande dificuldade em se comunicar.

Luiz, Brian Setzer e Eddy

Em 81 eu com apenas com 7 anos já observava bem de perto toda essa mudança que faria grande diferença na minha adolescência e depois por toda minha vida, digo isso porque basicamente tudo que conheci e conquistei foi por causa da música. Tenho poucas recordações sobre o início do Coke Luxe a não ser alguns shows que assisti nas matines do Sesc e nas vezes que ficávamos em casa gravando alguns programas de televisão que eles apareciam. A desgraça toda começou a rolar quando comecei a ficar adolescente, por volta dos meus 13 / 14 anos, isso por volta de 1988 quando meu pai estava gravando suas fitinhas e escutei um cara gritando que nem um louco, um som simples que parecia o Elvis e ao mesmo tempo era uma das coisas mais  nervosas que eu já tinha escutado, era o Johnny Burnette. Nessa época o Eddy estava com o Rockterapia e faziam um som mais nervoso, misturando rockabilly com R&Blues. Lembro até hoje quando vi o vinilzão e escutei Lonesome Train, Rockterapy, Rockabilly Boogie….até hoje são músicas que me arrepiam. Mas o que realmente mudou minha vida de vez e me pegou em cheio como um atropelamento foi quando escutei Stray Cats, aquilo sim fudeu com tudo….foi escutar o som, ver o visual e ter a certeza que era aquele estilo de vida que eu queria pelo resto da minha vida. Comecei a andar de visual direto, chamava minha mãe para copiar a roupa dos caras…o Stray Cats foi o divisor de águas na minha formação musical.

Cantando com Bjorn (guittarista do Chibuku / Alemanha)

Em 89 ganhei minha primeira guitarra uma Golden Les Paul preta e montei minha primeira banda de rockabilly, Os Caddilacs que depois mudou de nome para Sleep Walker´s, era uma banda de moleques na faixa dos 14/15 anos e que tocava basicamente covers de rockabilly e das bandas  que meu pai tocava, geralmente nos apresentávamos em festinhas no quintal de casa e de amigos e depois começamos a tocar em festas promovidas pelo Rock & Roll Club do Brasil, já comandadas pelo Eric Von Zipper. Como todo adolescente eu já era maluco pelos sons mais rápidos e pelas versões que algumas bandas faziam. Para mim até ai não existia diferença entre psychobilly e rockabilly, Meteors, Restless, Guanna Batz, Deltas, Polecats, Stray Cats para mim eram todas bandas de rockabilly e que algumas faziam um som mais psicopata (pelas letras) e mais rápido. Também curtia muito as bandas punks como Sex Pistols, Ramones, Clash e todas as outras bandas percussoras do Punk Rock.

Gravando com Kaes Vadius

O que tínhamos de informação era quando um amigo do meu pai viajava para fora ( Europa/EUA) e trazia alguma informação ou curiosidade sobre  o cenário, nessa ficávamos viajando e imaginando como era a parada, como eram os figuras que tocavam…..”pensar que depois de alguns anos fui conhecer quase todas estas desgraças aqui no Brasil, quando poderia imaginar um negócio desses”. Imaginar que o Chuck Harvey (Frantic Flintistones) um dia viria na minha casa rockabilly e ainda dançaria rockabilly na sala da minha casa tomando uma pinga de banana”. Ver todas as bandas que curti no meu pai´s sempre foi algo que nunca iria conseguir imaginar a tempos atrás. Quando consegui o disco com o título de Rockabilly Psychosis, reforçava ainda mais a minha idéia de que eram bandas de rockabilly “psicopatas”…..depois nunca consegui imaginar o lance PSYCHO sem o BILLY…para mim não tem como separar.

The Krents (CD)

Muitas dessas bandas tocavam juntas no começo e eu só fui descobrir mesmo que existia uma cena PSYCHOBILLY quando descolei o disco do Klub Foot, era nítido que era outra pegada, que o visual e a forma de agitar era outro, misturava a pegada rockabilly com o nervosismo do punk rock…aquilo tudo era perfeito para mim. Depois fui descolando algumas coisas em vídeo como Meteors, Guana Batz e até mesmo o próprio Klub Foot.  No final dos anos 80 a cena rockabilly já era bem forte por aqui, principalmente em São Paulo. Existiam diversas bandas, clubes e com  freqüência rolavam festas e espaços na TV onde muitas bandas puderam apresentar seus trabalhos, também já se escutava muito sobre uma cena psychobilly na região do Grande ABC com banda como Kães Vadius, SAR, etc. Inúmeras casas deram espaços para esta moçada, Madame Satã, Espaço Retro, Zoster, Dancing, Espaço Alquimia, etc.

Com Demented Are Go

E com o espaço que o SP Rock & Roll Club, dava para as bandas novas através do “primeiro” zine “rocker” Rabo de Peixe, pude descobrir muitas dessas bandas e depois ver ao vivo em algumas festas que meu pai organizava. Para mim 89 foi o ano, havíamos ganhado um festival de bandas na escola onde estudávamos e estávamos gravando nossa primeira música em uma coletânea lançada em vinil que saiu pelo festival e também como ganhadores saímos na capa do LP (Os Caddilacs) e ao mesmo tempo era lançado no Brasil o  disco Live Over London dos Guana Batz pela gravadora Stiletto. Quando ninguém poderia imaginar foi anunciado o show dos Guana Batz em São Paulo, no Projeto SP no dia 19/05/89, lembro até hoje a sensação de poder ver meu primeiro show ao vivo de uma banda internacional, nessa época eu tinha 15 anos e já andava no visual 24 horas por dia.

Com o Chuck (Frantic Flintistones)

Meu pai foi na coletiva de imprensa e contava todos os detalhes para nós. O Eddy ficou maluco com os caras, fez questão de registrar tudo e até mesmo cantar algumas coisas com eles na coletiva, eu fiquei em casa gravando a apresentação deles no programa Metrópole da Cultura. Durante o show tive a certeza do que era uma banda de psychobilly, foi um evento memorável, mas ao mesmo tempo após o show, morria em um acidente de carro o Billy Gato, um dos caras mais importantes da cena rockabilly em SP e vocalista da Banda Grilos Barulhentos. Com isso se interrompia mais um ciclo na cena rockabilly brasileira. Nessa mesma época é era lançado a primeira coletânea de psychobilly nacional “Devil Party” com bandas como Kaes Vadiuns, Sar, Kryptonitas (que posteriormente acompanhou o Eddy Teddy) e a Grande Trepada (mostrando que também existia uma moçada fazendo um puta som fora de SP) e que tive o prazer de fazer uma grande amizade e até em participar em vários shows com eles.

Com Meteors

Para terminar de foder em pouco menos de um ano depois, entre os dias 9, 10 e 11/03 de 1990 se apresentava em São Paulo no Projeto SP o Stray Cats. Fui com meu pai nos 3 dias assistir o show, além da coletiva de imprensa e a cena crescia cada vez mais, semanalmente rolavam festas, eventos e bandas e mais bandas foram surgindo, já era difícil conhecer todo mundo que aparecia pelas festas. Em 91 comecei a alimentar a idéia de montar uma banda de psychobilly. Nessa época eu já andava com uma molecada como o Ricardinho, Douglinhas, Marcio, Pander, entre outros caras que eram pirados por psychobilly, fui conhecendo muitas coisas através deles.

 

Luiz Teddy

Foi então que sai dos Cadillacs / Sleep Walkers e em 93 resolvi montar com meu irmão Marcos e com outro baixista que conhecia uma banda que tivesse influencia do psychobilly com letras com toques de humor negro e terror, para tocarmos em um festival.

 

 

Com Batmobilie

Ficamos a noite inteira pensando em um nome da banda e tomando umas biritas até que amanhece o  dia, toca a campainha logo…nessa hora meu pai sai do quarto e fala, – Atende a campainha que a esta hora só pode ser Crente, aliás porque é que vocês não colocam o nome da banda de Krents com K, porque soa até com próprio Cramps que vocês adoram….Surgia então o Krents. Depois desse dia começamos a tocar em uma porrada de lugares aqui em SP, conseguíamos com o som participar de festas rockabilly, punks e de todos os bares que davam abertura para bandas de rock, tocamos muito. Nessa mesma época comecei a escutar sobre algumas bandas que faziam Psychobilly em Curitiba, eu nunca havia tido contado com a moçada que fugia do eixo Rio-São Paulo, apesar do meu pai já ter tocado em outras localidades até mesmo em Curitiba com o Coke Luxe junto com o Beijo a Força.

Com Mad Sin

Eu sempre procurei assistir shows ao vivo e nessa fui conhecendo muita gente, até que descolei uma fita com uma gravação dos Cervejas e dos Missionários…pirei com a qualidade do som dos caras e estava na febre para conhecer de perto o som. Enquanto isso, apresentávamos com outras bandas que também estavam começando a fazer psycho aqui em SP como os Mongolords e por incrível que pareça a cena psycho começava a voltar em terras paulistanas, mesmo que rolasse uma meia dúzia de sons no final da festa para agitarmos. Até que um dia veio tocar na Rua Augusta no Der Temple “Os Cervejas e os Missionários” foi du caralho essa noite porque eram poucos os espaços que surgiam para este tipo de som que curtíamos e ver duas bandas de fora fazendo um puta som era realmente muito foda além de toa a sonzeira que rolou nessa noite.

Psycho's in Curitiba

O que sempre curti dessa cena, era pelo fato de ser uma cena pequena, o que te permitia conhecer todas as pessoas envolvidas na parada e com isso fazer ótimas amizades, porra era um dando uma força para o outro, quantas bandas ficaram hospedadas em minha casa, mesmo que as vezes só conhecia a galera por telefone ou por intermédio de alguém , mas era assim. Foi ai que surgiu a idéia genial do Morto (vocalista dos Mongolords) em lançar a primeira coletânea nacional de psychobilly nacional em CD (Psychorrendo / 94??) com bandas de São Paulo, Curitiba e Londrina que faziam psychobilly no Brasol… Esse cd pode unir ainda mais essa galera e mostrar que existia uma cena muito forte em ascensão.

Krents - II Psycho Festival

Pouco depois disso fiquei sabendo que a moçada de Curitiba ( Wallace, Vlad, entre outros) começavam a organizar um primeiro festival psychobilly em Curitiba e se eu não me engano o Mongolords participaria da primeira edição. Foi a primeira ponte São Paulo – Curitiba e no ano seguinte  acredito que em 94, pelo fato dos Mongolords não poderem participar, fomos indicados pelos mesmos para participar do II Psychobilly Fest. Fiquei tão maluco para participar da parada que faltei na minha ultima prova da faculdade e acabei carregando uma DP por um ano. Nessa mesma época o Therencio (Rio de Janeiro) já era considerado o 5º Krent e quase que mensal vinha para São Paulo para participar dos nossos shows e ajudava a bolar as maluquices que criávamos. Foi só comentar que iríamos para Curitiba para participar do Psycho Carnival que ele topou na hora.

1º show do Krents

O festival rolou no Cabaré Pagliard e a sensação para nós era como se estivéssemos no Klub Foot, nunca tínhamos escutado tantas musicas de bandas Psychobillies em um só lugar e lá existia uma porrada de gente que curtia mesmo a parada, sem contar na quantidade de bandas (isso me surpreendeu porque quem curtia tinha banda) e eram ótimas como Krappulas, Ovos Presley, Los Bandidos (Londrina)….resumindo o festival que rolava em apenas um dia foi o suficiente para valer tudo que já tínhamos passado como banda, não me arrependi de carregar essa DP. No ano seguinte gravávamos nosso primeiro CD “The Krents”pela Baratos Afins com a participação em uma das musicas do meu pai Ëddy Teddy”, aquilo era du caralho pois além de gravarmos alguns musicas dele ele registrava o vocal em um som com a gente….é estranho dizer isso, mas o Eduardo era o meu pai e o Eddy Teddy era o meu grande ídolo musical, parecem ser duas pessoas diferentes, sempre tive o cara como um pai e  um ídolo ao mesmo tempo.

Sleep Walkers com Eddy Teddy - Revista Veja

Depois voltamos para tocar em Curitiba onde tivemos a satisfação de ver nosso logo usado como destaque no festival, mesmo ano que surgia os Catalépticos, banda que na minha opinião mudava mais uma vez todo o cenário psychobilly no Brasil, capaz de trazer muito mais galera para a cena pela qualidade sonora que se diferenciava tudo que já tinha rolado aqui no Brasil, não devendo nada para as bandas de fora. Depois disso fizemos uma seqüência de shows por diversos lugares e em junho de 1997, perdia meu pai, meu amigo, meu ídolo pouco antes do nosso show de estréia do CD. O Eddy partia por causa de um aneurisma e com isso tudo que estávamos planejando para a banda entre outras coisas se partia, não tivemos mais pique para se apresentar por um bom tempo e pouco depois o Krents vinha a acabar.

Horas e horas em frente ao espelho fazendo topete

De lá para cá, fiz inúmeras coisas: Montei diversas bandas, continuei pesquisando e colecionando discos, prestigiei inúmeros festivais, participei de milhares de jams com excelentes bandas Nacionais e músicos de outrso países, ajudei a organizar várias festas, fiz programas de rádio de verdade, programas em TV, participação em livros, revistas, jornais, Internet, comerciais….

 

 

Minha primeira materia no jornal

Talvés minha maior contribuição para a cena, além das bandas que eu tive, foi acreditar nas bandas que existem no Brasil, essa cena pra lá de underground. Sempre procurei comprar os CDs das bandas nacionais para dar uma força, afinal não é fácil manter uma banda na estrada, sempre prestigiei bandas novas assistindo shows e participando em festivais onde quer que fossem, acolhi uma porrada de banda e de pessoas na minha casa, sempre procurei colocar bandas novas nas aberturas dos shows que tocávamos e tentei  sempre aceitar todo mundo que se mostra interessado em conhecer a cena, afinal ninguém nasce sabendo e eu me sinto orgulhoso em ter tido um pai que me mostrou tudo isso. Através da cena psychobilly foi reconhecido pelo meu trabalho e não somente por ser o filho do Eddy, toquei em vários lugares, conheci inumeras pessoas, fiz várias putarias por ai, fiz inumeros amigos, conheci minha esposa Lux, tenho um filho de 6 anos, o Dudu  que já adora Rock & Roll, participei do primeiro documentário sobre a cena psychobilly, sobre o Madame Satã (danceteria mais underground de SP), sai no livro que conta a história do bairro que nasci, estou produzindo um documentário sobre a vida do meu pai e certamente um dia terei muita história para contar para os meus netinhos, começando por este livro.

Luiz Teddy

Danieal, Neno, Marcos e Luiz

The Wanderers (1989)

Luiz Teddy e Mike (1994)

 

Matéria sobre rockers

Luiz Teddy durante apresentação do CICOV

Betão e Luiz Teddy

Luiz Teddy "Boy"

Molecada

Com Imelda May

Steve Whitehouse "Frenzy"

Com o Fella Therencio

Klingonz

 Com Klingons  Therencio, Gary "Griswalds

Peter Nekromantix

Legendarios da cena psycho

Putanheiros forever

 

 

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