Meu estilo de vida, minhas influências, Eddy Teddy meu maior ídolo.

Recebi algumas mensagens de pessoas perguntando como comecei a curtir rock & roll e a importância do meu pai na minha formação musical. Por estas e outras perguntas, resolvi escrever um texto sobre uma das épocas mais importantes da minha vida.

Por incrível que pareça, sempre fui um cara muito tímido, com muita dificuldade em descolar uma mina, usava óculos de grau, era magrelo, um dos últimos a ser escolhido para jogar futebol, uma negação para dançar lenta com uma menina…porra fui dar meu primeiro beijo com 14 anos e era aquele namoro de ficar de mãos dadas, transar então só com 16 para 17 e pra variar foi com aquela gordinha que sempre existe no bairro que acaba quebrando o galho da molecada (me desculpe as gordinhas, não sou preconceituoso…rs).

Não preciso nem dizer que sempre gostei de escutar musicas, minha vida sempre foi marcada por trilhas sonoras, um dos brinquedos que mais gostava era uma vitrolinha azul que ganhei do meus pais que abria a tampa como se fosse uma maleta e tinha um alto-falante embutido.

Com 10 anos eu já tinha um mini coleção de discos e entre aqueles discos com historinhas da Disney tinha também meus discos dos Beatles (Help, Hard Day’s Night, tinha também um disco solo do John Lennon), Elvis entre outras coisas.

O passa tempo do meu pai sempre foi acordar cedo nos finais de semana e gravar fitinhas com temas diferentes, acho que aprendeu muito com isso porque era uma forma de vasculhar seus próprios discos atrás de curiosidades.

O Eddy sempre foi um cara que adorava receber amigos e fazer festas, no inicio eram em nossa casa e depois teve a necessidade em descolar outros lugares, porque no quintal não comportava mais tanta gente.

Não era por grana, acho que até tinha prejuízo com isso, mas era a necessidade de conhecer pessoas, trocar experiências, buscar conhecimentos e ter as pessoas sempre por perto, era um verdadeiro anfitrião.

Na minha casa sempre tinha gente e se respirava rock & roll por lá, lembro até que quando eu ia tomar banho eu puxava uma caixa de som para próximo do banheiro e ficava escutando enquanto tomava banho.

Era ensaio das diversas bandas do meu pai na quartinho, depois na garagem, feiras de discos, reuniões, bailes e a gente brincava em torno disso tudo. Sem contar que meu visinho “Ló” tocava com meu pai e quando não estavam na mesma banda era uma banda a mais pra gente escutar.

Uma das minhas brincadeira de moleque com os filhos do Ló (Deni e Eric) era fazer guitarra com cabos de vassoura e ficar imaginando que estávamos tocando em algum lugar, como era engraçado isso. Viajávamos na imaginação achando que existia fãs atrás de nós, acho que era fruto dos filmes dos Beatles em nossa imaginação.

Outra coisa que curtia pra caramba era acordar cedinho nos finais de semana para assistir o seriado Happy Days, lembro que abria uma lata de doce de leite Mococa e ficava comendo e assistindo a série.

Quando completei 14 anos (1988) estava completamente fascinado pelo rockabilly era muita informação que rolava na década de 80 e este revival que acontecia no mundo havia pegado meu pai e o levado a montar o Coke Luxe a primeira banda a se intitular rockabilly do país, e ao mesmo tempo me fisgado também.

Antes disso já tinha até repetido de ano na quarta série porque não conseguia me concentrar nos estudos, naquela meu pai estava no auge da sua carreira musical, dividido entre viver da música e continuar sua carreira como administrador em uma empresa.

Pirava com os poucos shows que pude ver ao vivo do Coke Luxe no Sesc e outros lugares ao a livre, nessa época já existia no Brasil uma cena rockabilly consolidada, já tinha o clube do Rockabilly para unir os gatos pingados espalhados pelo país (é estranho esse lance de clube hoje em dia, mas não existia internet e muitos nem telefone tinham), muita coisa vinha rolando, meu pai recebia correspondências de outras cidades e estados, era muita gente que gostava da mesma coisa e estava caçando pessoas com os mesmo interesses.

Lembro que era um puta trampo para o meu pai cadastrar a moçada que enviava cartas e os que apareciam nas festas e quando ia rolar alguma festa tinha que ser com uma puta antecedência para enviar as cartas pelo correio.

Só o lance de você encontrar um disco ou um vídeo era motivo de reunir a moçada, o prazer de dividir as coisas, o prazer de ter em mão uma fitinha com uma música, os valores eram muito diferentes, nada era descartável, as amizades não eram descartáveis.

Para mim parecia que havia uma grande diferença de idade entre as pessoas que frequentavam minha casa e a molecada de 15/16 anos, eu me sentia um moleque perto da moçada que tinha visual e os caras tinhas um pouco mais de 18/20 anos.

Eu estava passando para a adolescência então era uma mistura de brincar com a molecada na rua e ao mesmo tempo querer ficar ali só de canto escutando o papo dos caras.

Como um ótimo observador, ficava só analisando o visual da moçada e tentando copiar ao máximo aquele estilo de vida, afinal era isso que eu queria para mim, ali mesmo tive minhas primeiras aulas de rock & roll.

Depois colocava alguns vídeos, dava pausa e chamava minha mãe para copiar a roupa dos caras do Stray Cats e dos Teddy Boys para tentar fazer para mim.

Meu pai tinha amigos rockabillies, bluseiros, hippies, punks, “rockeiros” de todos os tipos era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, mas o que me chamava mais atenção era sem dúvida o rockabilly.

Lembro que quando meu pai fazia suas colagens (quadros com recortes de revistas) ou criava algum convite para suas festas (naquela época os convites eram feitos com colagens e transferes das letras, ou a caneta) eu ficava só esperando ele jogar no lixo o que sobrava para eu pegar e montar minha pastinha com recordes das bandas.

Era muito difícil você adotar uma postura e não ser aloprado na escola ou pela rua, o que escutávamos sempre era “Elvis não morreu!”, ou alguém te humilhar com palavrões ou gozações só porque você se vestia diferente, isso quando não vinha um idiota afim de quebrar sua cara só porque não fazia parte do modismo….o pior de tudo é que era quase anos 90, estávamos em São Paulo e ainda tinha muita gente nessa pegada.

Como eu sempre tive amigos maloqueiros e sempre morei no mesmo bairro me sentia protegido e na boa, estava pouco me fodendo para isso.

Fora as outras turmas underground que também existiam como os punks, carecas, metaleiros, ou o cara curtia mesmo ou era melhor nem dançar com a musica conforme a mídia.

Escutava todos os dias Johnny Burnet, Gene Vincent, Eddie Cochran, Buddy Holly e outras bandas mais novas como Stray Cats, Matchbox, Flying Saucers, Meteors e Guana Batz, não fazia muita diferença de estilos, para mim eram todas bandas de rockabilly, só que umas mais rápidas que as outras.

O filme “The Wanderers, Gang da Pesada”, tinha mexido comigo e com meus amigos, e com isso montamos nossa primeira gang, andávamos direto com o emblema bordado na jaqueta, um cachorro com o escrito The Wanderers nas costas.

Praticamente brincávamos disso, era muito engraçado…lance de moleque que assiste filme e quer ser um personagem, gravávamos fitas para escutar na escola, no clube, na rua ou em qualquer canto, chegou um momento que até a molequerada estava deixando o topete crescer.

Tínhamos um barbeiro, um velhinho apelidado de Mole Mole (pelo fato de cotar o cabelo dos outros muito devagar), que tinha um cantinho na Av. Eng Caetano Alvares e ao lado do seu companheiro Barata ( esse já fazia um ninho na cabeça dos outros) eram responsáveis por tosar nossas cabeças.

Era uma barbearia pequenininha que ficava no bairro do Limão que você sentava numa cadeira muito parecida com a do dentista e ele já vinha com aquela maquininha manual que tem que ficar apertando para raspar a lateral do nosso cabelo.

Levávamos capas de disco para ele copiar os cortes de cabelo e a velharada desacreditava com a nossa turma e quando saíamos da barbearia já estávamos com brilhantina e tudo.

Meu primeiro creeper ganhei do meu pai no Natal de 88 e era da loja Zepelling, um creeper preto com fivela de caveira que tenho até hoje e já passou por inúmeras reformas.

Nessa época existiam os da Zeppeling e da Dr. Phibes, hoje este meu mesmo creeper é uma mistura dos dois, porque esta com a fivela Dr. Phibes, além de outras mãos que já passou.

Eu estava desesperado para ter um e quando encontrei só tinha o número 40/41, era muito grande para o meu pé, mas não me impediu de levá-lo e de ter que usar duas meias bem grossas para não escapa do pé, parecia um L quando estava com ele.

Arrumei meu primeiro emprego e assim que sobrou uma graninha, descolori meu cabelo, furei a orelha e já tinha incorporado todo visual “rockabilly”, imaginem só na empresa, minha sorte é que onde eu trabalhava era uma empresa de patrocínio de Skate entre outras coisas e a galera era mais descolada, mas mesmo assim fui aloprado.

Quando completei 15 anos ganhei minha primeira guitarra, uma Golden preta ( que tenho até hoje e inclusive toquei muito tempo com ela no Krents) e como já estava estudando violão e já fazendo uns lances com o Deni e com o Eric montamos nossa primeira banda, Os Cadillacs (duas guitarras e uma bateria que era só o caco).

Eu e o Deni tínhamos uma puta parceria, desde que éramos vizinhos, depois estudando juntos, éramos como unha e carne, todos os dias ficávamos tirando músicas e escrevendo as notas em um caderninho, era uma disputa de quem tirava mais sons.

Seu irmão Eric, mais velho que a gente montou uma bateria para tocar com a gente que foi a coisa mais absurda que já vi (isso tem gravado em vídeo), tinha uma estante de caixa que era um suporte de vaso de planta, se eu não me engano da samambaia da minha avó, não tinha prato então tinha que ficar batendo no aro da caixa e um bumbo emprestado.

Mais apesar de tudo isso, tínhamos um feelling absurdo, era muito natural tirar aquelas musicas, claro que o inglês era ridículo, mas por incrível que pareça cantávamos a mesma palavra errada, então para nós estava tudo certo.

No início tocávamos só nas festinhas que rolavam no quintal da minha casa e na casa de alguns amigos, era muito bom esse tempo, afinal rolavam os bailinhos quase todos os finais de semana.

Gravávamos fitas com rocks e baladas e a molecada se reunia para dançar e ver a gente tocando o detalhe da fita era que quando chegava na última música e a fita ia acabar tínhamos que abaixar o volume da gravação para dar o fead out .

Antes disso chegamos a gravar até um programa de rádio nosso em uma fita, contando histórias das bandas dos anos 50. Tenho essa gravação até hoje que termina contando do dia em que a musica morreu, ou melhor do dia em que o Buddy Holly morreu.

O engraçado é que nessa época ninguém bebia nada alcoólico, agente queria tocar, reunir os amigos e dar um beijinhos nas meninas e quando muito conseguíamos passar a mão em algum peitinho, isso era o máximo.

Minha família foi de extrema importância nesta época porque sempre prestigiaram os showzinhos, apoiavam em tudo, todos assistiam, até meus avós.

Pediam bis, cantavam com a gente, era uma vergonha só, mas a família é sempre a base de tudo.

Em 89, surgiu um festival de bandas na escola que estudávamos “ Colégio Padre Manuel da Nóbrega” mais conhecido como Matão, e lá estávamos nós preenchendo a ficha de inscrição para participar.

Já tinha um outro maluco que se chamava Fleury e andava com agente e começou a tocar baixo e foi logo intimado para entrar na banda.

Como precisava ter mais alunos da escola para participar, incluímos mais duas figuras para a apresentação “Alex e o Mouse” para fazer os vocais e assim fechamos o time para participar do festival.

Nesse mesmo ano em via pela primeira vez uma autentica banda de rockabilly/psycho tocar no Brasil, o Guana Batz, acho que depois disso minha vida nunca mais foi a mesma. Era o primeiro grande show que eu assistia e de uma banda gringa, mas ao mesmo tempo perdíamos um grande amigo e influenciador “Billy Gato” vocalista dos Grilos Barulhentos.

Mudamos o nome da banda para o festival para os Billy Gatos e inscrevemos a música “O Lindão” em sua homenagem e tocamos mais duas músicas Peter Gunn e é claro a versão de Wanderes “Lobo Mau” de Roberto Carlos .

Era muito cômico porque antes da apresentação eu e o Deni íamos até as outras salas de aula durante a matéria de educação física e tocávamos a musica O Lindão para os alunos com o propósito de divulgarmos nosso som e com isso conquistar fãs para torcerem para o grupo. (Isso daria um filme!!!)

O resultado final é que ganhamos o festival (CICOV) e com isso gravamos nosso primeiro disco, ou melhor uma musica, além de sair na capa do LP.

O produtor “Macedo” resolveu levar as bandas para se apresentarem em outras escolas, parecia um programa do Raul Gil.

Ficava um monte de crianças sentadas, batendo palma e gritando nas apresentações e depois vinham pedir autógrafo com um caderninho, acho que foram as primeiras e únicas vezes que nos sentimos famosos.

Sem contar no dia que gravamos a música ,O Lindão, que foi no playback, chegamos com os instrumentos e já tinha um midi gravado, assim só colocamos as vozes enquanto o Eric ficava peidando no estúdio.

A musica parecia uma gravação da turma da Xuxa, mas o que valia é que era a primeira vez que pisávamos em um estúdio, um universo muito longe da nossa realidade, e ainda estávamos nos divertindo muito com isso.

Em Março de 1990, um ano após o Guana Batz acontecia em São Paulo outro show que definitivamente mostrava o que queríamos da nossa vida, um dos maiores acontecimentos que já houve no Brasil, o show do Stray Cats no Projeto SP.

Fomos nos 3 shows, ficamos malucos eu estava com 16 anos e pirado com tudo que eu via, levei meu walk-man para gravar e depois escutava todos os dias.

Nessa época o rockabilly já não era algo estranho em São Paulo e começava a aparecer cada vez mais figurinhas que eram chamados de Bambole, por causa da novela dos anos 80 e que estavam ali só por onda.

Surgiram aparições em filmes como o Escorpião Escarlate (Zé do Caixão), fui chamado para fazer o comercial do Chocolate Rock da Nestle, a cena estava evidente  ao mesmo tempo cheia de babacas que ficaram durante muito pouco tempo, mas ao mesmo tempo atraia mais mulheres.

Houve um período que eu e o Fleury nos separamos da banda e montamos os Neurastenicos, porque queríamos tocar só rockabilly/psycho e o Deni e o Eric curtiam coisas dos anos 60, isso durou apenas um show e depois voltamos a tocar com os caras.

Depois a banda mudou de nome para Sleep Wakers e começamos a sair da garagem e colocar nossa cara na rua, afinal estava na hora de mostrar o que havíamos aprendido.

Rolando pela primeira vez um show no Bexiga, se eu não me engano no Persona numa festa do Eric Von Zipper e ainda ganhando um cachezinho.

Fizemos inúmeras apresentações, começamos a freqüentar semanalmente as festas de rockabilly nessa época já organizadas pelo Eric Von Zipper através do Rock & Roll Clube do Brasil, meu pai tinha deixado de lado esse lance de clube e fazia esporadicamente algumas festinhas.

Rodamos todas as casas que existiam, como Madame Satã, depois Morcegóvia, depois The The, Cais, Der Templo, Retro, Royal, Az 70, Clube das Bandeiras, Persona e outras da 13 de maio, foram tantas festas que é difícil saber as que mais curti ou as que não estive presente.

Depois descolei a primeira mina que também fazia parte dessa cena, que se chamava Andrea, era um namoro inocente mas muito louco porque estava com uma garota que curtia a mesma coisa que eu, que andava de visual, que dançava rock & roll (não comigo, afinal continuava péssimo para dançar com uma mulher, dançava sempre sozinho dando os famosos pulões Teddy Boys, vivia com o joelho destruído) era uma paixão de adolescente que durou pouco tempo, mas certamente marcou este período.

Esse período com os Sleep Walkers durou até 91/92 e como eu já estava vidrado nesse lance de psychobilly e bandas de Neo e sentindo a necessidade de fazer músicas, não ficar só cantando musicas em inglês que eu não entendia nada resolvi me juntar com outros vagabundos, puxei meu irmão Marcos que sempre foi pau para toda obra e formamos o The Krents.

Mas esta é outra história que se houver necessidade um dia volto a contar.

Bom este foi um período muito importante para mim, uma fase de sonhos de adolescente, um período que marcou muito porque estava naquela transição de criança virando adulto, ou achando que era adulto.

Fiz inúmeras amizades que até hoje tenho contato, vivemos cada momento como se fosse o último e toda esta bagagem que carreguei, toda minha formação, meu caráter, meus gostos musicais devo não só ao meu pai Eddy Teddy como a minha mãe que sempre esteve ao meu lado apoiando tudo e é claro aos meus amigos e companheiros que não foram citados mas estiveram presentes nesse período.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: