Um dia triste para ficar na memória

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Hoje estava escutando os Hollies, uma banda dos anos 60 predileta do meu pai que tem o nome inspirado no Buddy Holly.

Toda vez que escuto essa banda fico emocionado pra caralho, pois me remete a várias coisas do passado e por isso hoje resolvi postar e compartilhar com vocês um dos dias mais tristes da minha vida, o dia em que perdi meu pai, meu amigo e minha maior referencia musical.

O ano de 97 estava sendo um ano excelente e atípico para o The Krents, banda que eu era vocalista e certamente uma das melhores que já participei até hoje.

Tínhamos tocado no mês de junho no Café Piu Piu com o Coke Luxe num encontro de pais e filhos que ficou na história, era a primeira vez que tocávamos no mesmo palco e o tema da festa, era este mesmo, país e filhos do Rock & Roll.

Frequentemente saíamos em jornais, revistas, programas de TV, tínhamos gravado um cd, e ia rolar até um clip da banda…tudo estava acontecendo.

No dia 14/7/1997 (sabadão) fizemos uma puta matéria para o Estado de São Paulo que foi encartada no “Seu Bairro – norte” com 3 páginas, falando do Krents, da minha família… neste dia meu pai contou sua história toda para o repórter, lembrando das suas origens, dos gostos musicais, até minha mãe que nunca havia participado de uma entrevista entrou na dança e participou, saiu em foto….o repórter fez questão de registrar tudo..parecia uma despedida.

Nessa época eu estava desempregado, no terceiro ano da faculdade, muitas coisas tinham mudado na minha vida e me dedicava 100% ao Krents.

Na manhã do dia 17 uma terça feira como qualquer outra acordei junto com meu pai e minha mãe, por volta das 6:30 da manhã para deixar uma caixa de cds da banda que ele iria levar para vender no escritório onde trabalhava, foi a ultima vez que olhei para o meu pai e minha ultima lembrança.

Voltei ao quarto e me deitei para ficar mais um pouco na cama, coisa de desempregado em plena terça feira, enquanto ele ia buscar o pão e o leite na padaria, hábito que tinha todas as manhãs enquanto minha mãe preparava o café.

Quando voltou escutei ele reclamando com a minha mãe que estava com um dor de cabeça, achei muito estranho, afinal nunca tinha visto meu pai reclamar de nada e minha mãe disse para tomar uma aspirina, afinal deveria ter tomado friagem na rua.

Ele sentou no sofá e a dor só aumentava, foi quando minha mãe perguntou se ele não queria chamar meu irmão para levá-lo no hospital.

Nessa hora fiquei estático no quarto escutando tudo aquilo, fiquei meio sem reação, como reagimos estranho numa sensação inusitada…deu uma sensação terrível, e meu irmão foi levá-lo correndo.

Minha mãe disse que quando entrou no carro, não conseguia enxergar direito e a cabeça doía muito.

Chegando ao hospital, meu pai não conseguia ver praticamente nada, minha mãe comentou que até para ir no banheiro foi junto com ele….foi terrível.

Deram entrada no São Camilo da Pompéia e na mesma hora foi identificado que estava tendo um derrame no cérebro, por isso foi prontamente colocado em coma induzido e operado as presas.

Cada dia era uma agonia só e as esperanças muito pequenas, afinal teve um aneurisma e bem grave. Segundo o médico poderia perder a visão e os movimentos.

Quando minha mãe contou isso, ficamos completamente perdidos. Minha mãe não podia nem encostar nele na UTI porque qualquer alteração no seu quadro poderia ocasionar uma gravidade ainda maior.

Não tive coragem de ir até a UTI, muito mesmo de velo no caixão, meu pai era o cara que tomava frente de todas as coisas e pela primeira vez não tínhamos o apoio ou alguém que encarasse o problema de frente.

Me senti um merda por não poder fazer nada, mas ao mesmo tempo quis guardar sua imagem boa.  

Entre os dia e 18 / 19 meu pai falecia e era enterrado no Cemitério do Araçá em São Paulo, aos 46 anos de idade, prestes a completar 47 anos.

O que é mais inacreditável de tudo isso é que por ser um cara que pensava em tudo, totalmente centrado, detalhista e organizado até mesmo seu enterro o pessoal da empresa onde trabalhava cuidou, seu amigo Willian “Velho” numa destas brincadeiras de falar sobre morte, meu pai havia declarado que o dia que morresse gostaria que tocasse a música Get Together dos Youngbloods (até para isso tinha trilha musical) e sempre comentava que gostaria no dia que morresse era para tirar tudo do seu corpo que prestasse para doar e o resto era para tocar fogo que as cinzas ainda poderiam ser aproveitadas para alguma coisa. Tudo isso foi comprido como um desejo seu.

O que foi mais marcante foi no dia que estavam para desligar o corpo do meu pai o Kid Vinil preparo um programa de rádio em especial ao Eddy Teddy, ficamos reunidos em casa aguardando a ligação do hospital e escutando o programa…..dia terrível

A matéria que fizemos para o estado só saiu no dia 23/07, meu pai não chegou a ver e ainda deu tempo do repórter fazer uma nota sobre seu falecimento…..parecia uma despedida mesmo.

É muito triste lembrar destes detalhes e voltar ao tempo, mas cada vez mais não me conformo nestes detalhes e na organização do Eddy. Agora mesmo escrevendo este texto para o blog e montando o documentário fico observando as coisas e tenho a nítida sensação que até isso ele deixou pronto para fazermos, afinal esta tudo muito bem separadinho. São anotações e anotações tudo muito bem organizado e detalhado para poder compartilhar com cada um de vocês.

Folha de SP

Folha de SP

Diário do Grande ABC - 20/07/1997

Diário do Grande ABC - 20/07/1997

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2 Respostas to “Um dia triste para ficar na memória”

  1. Viviane ( Grega) Says:

    Luiz e galera,

    Como havia comentado anteriormente, esse blog tem um efeito catártico, além da homenagem, acredito que para todos que conheceram o Eddy.
    Luiz, quando fiquei sabendo do falecimento do Eddy, foi um dia terrível, lembro como se fosse hj, fui ao velório e ao crematório, e estávamos todos arrasados, me apoiava no Ivanio foi ele que me deu forças…
    Foi um dia muito pesaroso, mas por mais que tenha sido triste, eu nunca vou me esquecer, pq foi uma cerimônia triste e bela, realmente ele pensou em tudo, e foi embora em grande estilo, foi sua última homenagem a vida e a nós, eu nunca vou me esquecer e sempre que ouço a música me lembro saudosa, foi muito marcante, e era realmente isso que ele queria, que guardássemos com carinho sua última homenagem…
    bjão à todos

  2. Rodrigo Sputter Says:

    Caramba cara, que relato…
    Lembro muito bem da época em que ele faleceu e os caras dos Dead Billies me contaram isso…eu sonhava um dia em conhecer seu pai e pra mim isso era uma questão de tempo, queria conhecer pessoalmente essa figura lendária…lembro tb dessa história de tocar Youngbloods no enterro dele…

    Agora finalmente vou conhecê-lo de alguma maneira!!

    ps.: Outro grande rocker que morreu de repente e de aneurisma e pegou-nos de surpresa vou o velho rockbrito…eu achei que fosse uma brincadeira dos caras, que sempre ficavam com essa de “num sei quem morreu, tal pessoa morreu”…e quando foi verdade fiquei de cara…
    Essas grandes figuras nunca poderão ser esquecidas nas nossas lembranças.

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