Eddy Teddy (por Drago)

Ontem recebi um e-mail de um amigo do Eddy, o DRAGO que tive o prazer de conhecer quando ainda uma criança e morávamos na Eng. Caetano Álvares que me fez voltar no tempo e ficar muito emocionado.

Talvez o DRAGO seja o primeiro cara que eu tenha visto num puta visual, me recordo muito bem do dia que apareceu em casa numa destas reuniões de final de semana onde meu pai juntava alguns amigos para escutar e falar sobre rock & roll. Se eu não me engano tenho até uma fita gravada desse encontro (afinal o Eddy registrava tudo) onde o próprio Drago, canta vários sons do Elvis.

Lembro que meu pai ficou maluco com o vozeirão do cara, que na época contribuía com desenhos para o primeiro zine Punk que eu tive contato, o Lixo Cultural junto com o Worney.

Zine Lixo Cultural

Zine Lixo Cultural (83)

Resolvi postar essa carta enviada pelo Drago, que irá participar do documentário e porque sem dúvida nenhuma foi um dos caras que deu uma puta força não só para as ilustrações que foram encartadas no LP Rockabilly Bop do Coke Luxe (já postadas no blog) onde expõe de um jeito criativo em forma de historinhas a relação de músicas tocadas no Radar Tan Ta como também as ilustrações do zine Rabo de Peixe (o primeiro zine rockabilly publicado no Brasil).

EDDY TEDDY, POR DRAGO…

Drago, Eddy Teddy, Vilachã

Drago, Eddy Teddy, Vilachã

The First Time Ever I Saw His FaceComo Eu Conheci Eddy Teddy

                 Foi um tempo bom. Eu era jovem, e para qualquer jovem o tempo é sempre bom; mas, no meu tempo, tive a felicidade de conviver com um dos melhores caracteres de qualquer tempo. Estou me referindo ao grande Eddy Teddy, um dos melhores sujeitos — em todos os sentidos — que já tive a honra de conhecer; e tenho certeza de que quem também o conheceu pode dizer o mesmo. Mas, para falar da época e das circunstâncias em que conheci Eddy, vou ter de falar um pouco de mim mesmo.

A título de apresentação, basta dizer que eu comecei a gostar de rock’n’roll desde o berço; coisa de família, mesmo. Nasci no mesmo ano em que os Beatles lançaram seu primeiro disco oficial. Aos seis anos de idade, nos idos de 1968, deixei boquiabertos os quatro integrantes da bandinha de garagem de um tio meu, ao cantar Help, inteirinha, num inglês perfeito — embora eu ainda não entendesse uma só palavra do que estava cantando. Mas, o som era bom; melhor do que o vocalista dos caras podia fazer, segundo admitiram “os quatro cabeludos da Penha”. Apesar disto, só fui integrar a primeira formação de algo que poderia se chamar de uma banda de rock’n’roll aos 19 anos.

A banda Cruz de Malta não teve vida muito longa; o líder da banda (o baixista) tinha umas composições próprias — bem intencionadas, mas ainda muito imaturas — que ele insistia em apresentar, almejando um estrelato que jamais chegou. Mas as apresentações da banda eram sempre grandes “sucessos de público”, porque eu fazia questão de incluir no repertório alguns covers de Elvis, Buddy Holly, Carl Perkins, Little Richard e, é claro, dos Beatles. Numa dessas apresentações, em um festival de música jovem, no qual nossa banda havia concorrido (sem vencer) com duas composições, fomos convidados a fazer um showzinho extra — sem as composições próprias, só com os covers que tocávamos, para divertir a plateia. Um dos jurados do festival era o Lu Stopa, baixista do Verminose — então, uma banda semiprofissional, que em pouco tempo mudaria seu nome para Magazine e faria grande sucesso nacional. No final da nossa apresentação, pedi à banda que tocasse Shake, Rattle & Roll, mas troquei a letra e cantei Tô Sabendo, do Verminose, à la Elvis. Lu Stopa não resistiu, pulou para cima do palco e cantamos em dueto. Logo, eu deixava o vocal do Cruz de Malta e assumia o do Verminose.

Em 1981, ninguém sabia o que era rockabilly; pelo menos nenhum curtidor de rock que eu conhecesse. O termo usado para definir o som que fazíamos era, simplesmente, “rock’n’roll” — em oposição ao termo “rock”, muito abrangente, que designava quase tudo o que já havia sido feito, desde a Jovem-Guarda. “Tudo”, menos o tal “rock’n’roll”, que soava como algo meio antigo, deslocado no tempo. Claro que todo mundo gostava, mas pouca gente tinha coragem de admitir. Parecia um som primitivo demais; um negócio pouco sofisticado. E era muito chique ser sofisticado, naquela época.

                Mas, que se dane! Eu gostava mesmo era de rock’n’roll! Desde o berço! Por isso, naturalmente, o único som “do momento” que me atraía era o que mais se aproximava do velho e bom rock’n’roll: o punk rock, feito com guitarra, baixo, bateria e jaquetas de couro — quanto mais surradas, melhor. O Verminose era uma banda punk; logo, ali eu estava no meu habitat natural. Mas, no final de 1982, os caras já eram profissionais demais; e o Kid Vinyl — que fora vocalista do Verminose — chamou o Lu Stopa e o Trinkão (baterista, bom pra cacete!) para formarem o Magazine (junto com Ted Gaz, na guitarra). Sobramos eu e Philé, o antigo guitarrista. Philé virou o roadie oficial do Magazine; e eu larguei o microfone para ir desenhar quadrinhos — uma das minhas outras paixões, paralelamente ao rock’n’roll.

Em março de 1983, escrevi, desenhei e lancei o primeiro (e, até onde sei, o único) fanzine punk em quadrinhos: o Lixo Reciclado. O principal ponto de venda do fanzine era o lugar hoje conhecido como “Galeria do Rock”. Na verdade, apenas duas lojas da Galeria toparam exibir o fanzine em suas vitrines, sem medo de atraírem o público ao qual a publicação se destinava: a Punk Rock (obviamente) e a Baratos & Afins. O fanzine até que vendeu bem; mas eu ganhei pouquíssima grana — porque, na hora de fazermos as contas, eu acabava pegando quase toda a minha parte em discos. Num desses dias de acerto de contas, o Luís Calanca, da Baratos & Afins, me deu de presente um disquinho compacto, com apenas uma música de cada lado, de uma banda que acabara de lançar pelo selo de sua própria loja e disse: “Ouve esse som aí, depois você ma fala o que achou.”

Cheguei em casa e botei o disquinho pra tocar — e fiquei ouvindo o disquinho, não sei quantas vezes, até o dia seguinte, sem parar! Desnecessário dizer que ao chegar de volta na Baratos & Afins, na tarde daquele mesmo dia seguinte, eu já havia decorado as letras das músicas, que não paravam de tocar na minha cabeça! Calanca ficou meio surpreso ao me ver de volta, tão cedo; mas, antes que ele perguntasse, eu já fui logo dizendo: “Meu!! Que dukará-á-á-lho!!! Onde cê achou esses caras? Me apresenta pra eles!” Ele me disse que os caras — ao menos alguns deles — estariam na loja, naquele mesmo dia, mais tarde. Fiquei por ali mesmo, até ver entrar um cara magrinho, de óculos, acompanhado por outro cara, mais baixinho. Calanca nos apresentou, e eu apertei a mão de Eddy Teddy e Little Piga, pela primeira vez, e disse: “Muito prazer, eu sou Drago, seu fã número um!”

Nessa época, eu já sabia o que era rockabilly. Na própria Galeria, já havia trocado meus fanzines por discos de Robert Gordon, Stray Cats e muitas “velharias”. Mas o disquinho daqueles caras era o único que tinha escrito na capa “É Rockabilly!”; e era cantado em português! Eles eram os únicos que faziam o som que eu gostava de ouvir, na língua que aprendi na escola! Notei, entretanto, que meu entusiasmo de fã era recebido com um certo receio, pelos caras. Isto porque os punks gozavam de péssima fama, naquele tempo; e, entre nós, eu era o único vestido com o “fardamento” completo, daqueles de meter medo, mesmo. Porém, bastou que eu dissesse algumas “palavras mágicas” — tais como “Buddy Holly” ou “Jerry Lee” — para que o grande coração de Eddy fosse tocado e o de Piga se acalmasse, um pouco. Contei-lhes sobre meu passado musical e, conversando, eles logo perceberam que não estavam diante de um troglodita, apesar das aparências. E eu percebi que além de um grande músico, ali estava um grande sujeito, também. Um sujeito tão legal que, da primeira vez em que nos vimos, me convidou para ir à sua casa, no fim de semana, onde alguns amigos costumavam reunir-se, para ouvir e fazer música, tomar umas cervejas e jogar conversa fora.

E eu fui, mesmo — levando o meu disquinho, para que meus novos ídolos o autografassem. O Piga não foi, naquele dia; mas, além do Eddy, lá encontrei os outros dois integrantes da banda Coke Luxe, Lelo Cadillac e Jipp Willis — além do Velho (um “velho” amigo da turma) e um outro velho, enrugado e quietão, sentado a um canto da sala. Ao ser apresentado à figura, quase não acreditei: tratava-se do legendário Gato, guitarrista da banda RC7, que acompanhou ninguém menos do que Roberto Carlos, durante todo o período da Jovem Guarda.

Eddy mostrou-me sua coleção de discos e — aí, sim — eu pirei. O cara tinha tudo! Eu me considerava um conhecedor relativamente bom da História do rock’n’roll; mas era um conhecedor teórico: jamais ouvira o som de muitos dos pioneiros sobre os quais eu já havia lido bastante. Foi aí que o Eddy revelou, para mim, um dos seus traços mais marcantes: sua generosidade. No mesmo momento em que ouvíamos, ele gravou uma fita K7, para me dar de presente. (Esta, aliás, foi apenas a primeira: ao longo dos anos de nossa amizade, Eddy gravou uma porção de fitas K7 para mim; cada nova descoberta, cada disco novo que adquiria, ele fazia questão de compartilhar com os amigos.) Então, meio de brincadeira, resolvemos fazer um som, também. Violões apareceram, vindos de algum lugar, o Jipp começou a batucar sobre qualquer coisa, e, pronto: foi difícil nos fazer parar.

Na sala da casa do Eddy, com sua esposa, Luiza, e seus filhos pequenos em volta, tocamos, cantamos e bebemos (principalmente), até tarde, naquele dia 6 de novembro de 1983. Todos (inclusive o Gato) autografaram a capa do meu disquinho e eu voltei pra casa cantando, pelo caminho todo. Mas, já no meio do caminho, percebi que ali, de onde acabara de sair, é que estava em casa, de verdade. O rock’n’roll, a família, os amigos, a criançada… Eu havia voltado para o meu berço. Eu era feliz, e sabia disso.

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Uma resposta to “Eddy Teddy (por Drago)”

  1. Viviane ( Grega) Says:

    Luia e galera,

    Pelo visto esse documentário vai ficar sensacional:) é sempre bom ler um pouquinho desse blog e saber que várias pessoas compartilham de histórias semelhantes, com relação aos laços de amizade entre nós e o EDDY, lendo esse email, lembrei que comecei a gostar de Buddy Holly muitooooooo por causa do Eddy, eu gostava um pouco, mas ai ele me mostrou algumas coisas do acervo que ele tinha e eu fiquei enlouquecida, assim como ele, rsrs ai toda vez ficavámos um tempão falando do cara, ele me viciou de próposito, hahahaha. bons tempos:)
    bjão

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